Febre maculosa: quais os riscos da doença que causou a morte de dentista após viagens para SP e MG
Doença causada por uma bactéria do gênero Rickettsia é transmitida pela picada do carrapato-estrela
Por: CNN
Publicado em 13 de Junho de 2023 as 10:46 Hrs
O Instituto Adolfo Lutz confirmou que a dentista Mariana Giordano foi diagnosticada com febre maculosa. Ela e o namorado, o piloto de automobilismo Douglas Costa, morreram em 8 de junho após apresentarem subitamente febre, dores e manchas vermelhas no corpo. Os resultados do diagnóstico foram divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo na segunda-feira (12).
A febre maculosa é uma doença causada por uma bactéria do gênero Rickettsia, transmitida pela picada do carrapato-estrela. Segundo o Ministério da Saúde, de 2007 a 2021, foram notificados 36.497 casos de febre maculosa no Brasil, dos quais 7% foram confirmados, em uma média de 170 por ano nesse período. Dos 2.545 casos confirmados, 2.538 relataram situações referentes à exposição de risco e, destes, 68,5% frequentaram ambiente de mata.
No Brasil, o Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) atua como Serviço de Referência junto ao Ministério da Saúde na área. A chefe do laboratório, Elba Lemos, explica que o diagnóstico correto depende do conhecimento dos profissionais de saúde sobre a doença, que apresenta sintomas semelhantes aos de outros agravos.
Saiba mais sobre os principais sinais da febre maculosa e o que pode ser feito para prevenir a doença:
O que é a febre maculosa?
A febre maculosa é uma doença infecciosa, causada por bactérias, transmitidas pelo carrapato da espécie Amblyomma cajennense, popularmente conhecido como carrapato-estrela. A doença, que provoca um quadro febril agudo, pode se apresentar de forma assintomática até casos mais graves, com grandes chances de morte.
Existem mais de 20 espécies de bactérias do gênero Rickettsia que podem causar febre maculosa em todo o mundo.
No Brasil, duas espécies estão associadas a quadros clínicos: a Rickettsia rickettsii, que leva ao quadro de Febre Maculosa Brasileira (FMB) considerada a doença grave, registrada no Norte do estado do Paraná e nos estados da região Sudeste; e a Rickettsia parkeri, que tem sido registrada em ambientes de Mata Atlântica (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia e Ceará), produzindo quadros clínicos menos graves.
Quais são os sintomas?
Os sinais da doença surgem de forma abrupta, com febre alta e dores de cabeça. “Alguns pacientes podem apresentar dores musculares intensas, cansaço e prostração. Conforme a doença avança, existe o risco de hemorragias, além de náuseas e vômitos”, acrescenta Elba.
Os sintomas aparecem após o chamado período de incubação, que leva em média 7 dias, podendo variar de 2 a 15 dias. Em algumas pessoas, pode ocorrer o surgimento de lesões na pele, em geral do 3º ao 5º dia da doença.
Como ocorre a transmissão?
A doença é transmitida pela picada de um carrapato infectado com a bactéria. “Para que a infecção aconteça, a aderência do carrapato à pele precisa ser prolongada, por um período médio de quatro horas”, explica Elba.
A existência de lesões na pele pode favorecer a transmissão, por isso, é preciso retirá-los com cuidado para evitar a contaminação. A febre maculosa não é contagiosa, ou seja, não pode ser transmitida de uma pessoa para outra.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da febre maculosa pode ser realizado a partir de diferentes testes laboratoriais. Em geral, é utilizado um teste chamado de Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI), que detecta a presença de anticorpos contra a bactéria causadora, a partir de coleta de sangue.
“O diagnóstico sorológico permite identificar a presença de anticorpos anti-Rickettsia no sangue do paciente. É importante destacar que durante a doença, principalmente entre o 7º e 10º dia, o indivíduo não tem anticorpos para a febre maculosa. Por isso, o resultado da análise de sangue coletado no início da doença pode ser negativo”, explica Elba. Segundo a pesquisadora, a coleta de uma segunda amostra de sangue é necessária.
Outro exame que pode indicar a doença é o de imunohistoquímica, que revela a presença da bactéria em amostras de tecidos obtidas a partir de biópsia das lesões da pele.
Como é feito o tratamento?
O tratamento da febre maculosa pode ser realizado com o uso de medicamento antimicrobiano específico, por via oral.
“Em pacientes graves, com edema [inchaço] e vômitos, por exemplo, o antibiótico deve ser ministrado por via endovenosa, além do tratamento de suporte, dependendo da gravidade do caso. Como a bactéria destrói a parede do vaso sanguíneo, o tratamento deve ser iniciado o mais rapidamente possível”, afirma a pesquisadora da Fiocruz.
Segundo a especialista, o tratamento precoce reduz a extensão das lesões e pode diminuir de forma significativa as chances de morte.
“Apesar de ser considerada uma doença de baixa frequência, a taxa de mortalidade é elevada devido à falta de diagnóstico adequado e de tratamento precoce. Diante de um caso suspeito, deve-se coletar o sangue para a análise laboratorial e iniciar o tratamento imediatamente, mesmo sem a confirmação laboratorial”, explica Elba.
Como se prevenir?
A febre maculosa tem sido registrada em áreas rurais e urbanas do Brasil, segundo o Ministério da Saúde. O carrapato-estrela, responsável pela transmissão, é encontrado principalmente em animais como as capivaras e cavalos. Segundo o ministério, a transmissão pelo carrapato de cachorro é menos comum, mas também pode acontecer.
De acordo com a pesquisadora Elba Lemos, da Fiocruz, a melhor forma de prevenção é evitar áreas infestadas por carrapatos, principalmente durante o período de maio a outubro.
Outras medidas de prevenção incluem a atenção redobrada durante atividades em áreas arborizadas, com alta vegetação e gramados, como trilhas, parques e fazendas. O uso de roupas claras pode facilitar a visualização dos carrapatos, além disso, sapatos fechados, camisas de manga longa e calças podem ajudar na prevenção.
Após as atividades que podem oferecer riscos, é fundamental verificar todo o corpo e remover os carrapatos que possam estar aderidos. Os carrapatos devem ser retirados com o uso de uma pinça, sem apertar ou esmagar. A área deve ser lavada com água e sabão ou álcool. Em caso de surgimento de sintomas, os especialistas recomendam a procura por atendimento médico.
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