Em estudo, selênio reduz danos cardíacos causados por doença de Chagas
Substância, que atua como um antioxidante, foi capaz de reduzir os danos cardíacos relacionados à fase crônica da enfermidade
Por: CNN
Publicado em 03 de Fevereiro de 2022 as 10:22 Hrs
Um estudo conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou benefícios para a função cardíaca de pacientes com a Doença de Chagas a partir do uso de um suplemento à base de selênio.
A substância, que atua como um antioxidante, foi capaz de reduzir os danos cardíacos relacionados à fase crônica da enfermidade em pacientes de um estudo clínico.
Os resultados do ensaio foram publicados na revista científica EClinicalMedicine. O estudo contou com a participação de pacientes com a doença de Chagas crônica com problemas do coração de grau leve a moderado, que são classificados como estágio B.
A pesquisa confirmou a segurança do uso do selênio, sem registro de reações adversas. No subgrupo de pacientes com cardiopatia moderada, classificada como estágio B2, as análises apontaram melhorias com a redução da gravidade dos problemas cardíacos.
Uma das causas da cardiopatia, neste estágio da doença, é o dano oxidativo, caracterizado pela ação do oxigênio no organismo que afeta células do corpo a partir da geração de radicais livres. O suplemento à base de selênio atua justamente na prevenção do dano oxidativo que acelera o desgaste do coração.
Os autores da pesquisa avaliam o resultado como positivo e indicam que estudos complementares serão realizados.
“Geramos a primeira evidência, obtida em ensaio clínico randomizado, sobre o benefício do selênio para pacientes em estágio B2 da cardiopatia crônica na doença de Chagas. Foi um resultado estatisticamente significativo, porém em uma amostra pequena”, afirma a coordenadora do projeto Tania Cremonini de Araujo-Jorge, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).
Segundo ela, novos estudos serão conduzidos para confirmar os achados a partir da avaliação por um período mais longo dos pacientes em diferentes estágios da doença.
“Este foi o primeiro ensaio clínico randomizado que testou o uso do selênio para prevenir a piora da função contrátil do coração na cardiopatia chagásica. O ensaio mostrou que existe um subgrupo de pacientes em que o tratamento foi benéfico, o que nos animou muito e gerou perguntas para novas pesquisas”, acrescenta o cardiologista Marcelo Holanda, pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz).
Como foram realizados os ensaios
Para avaliar os efeitos da suplementação de selênio, os pesquisadores da Fiocruz recrutaram 66 pacientes atendidos no ambulatório de doença de Chagas da Fiocruz.
Os voluntários foram divididos em dois grupos, enquanto metade recebeu suplementação diária com cápsulas de selênio, a outra parte recebeu o chamado placebo, uma substância sem qualquer tipo de efeito para o organismo. Os paciente foram acompanhados durante um ano, a partir de consultas clínicas, exames laboratoriais e do coração.
A pesquisa seguiu um protocolo chamado tecnicamente de duplo cego randomizado, o que significa que os voluntários foram distribuídos nos grupos de forma aleatória e, durante todo o acompanhamento, tanto os pacientes como os avaliadores não tinham conhecimento de quem estava recebendo selênio e quem estava tomando placebo.
Esse tipo de análise faz com que os dois grupos tenham pacientes com perfis semelhantes em relação a fatores que podem influenciar no resultado do estudo. Além disso, evita a predisposição a reconhecer sinais de melhora em quem usou a medicação ou piora em quem não usou.
No final do ensaio, os pesquisadores compararam a evolução clínica dos pacientes. O resultado mais relevante foi observado entre aqueles que apresentavam inicialmente a perda moderada da força de contração do coração (cardiopatia de estágio B2).
Após um ano de acompanhamento, os voluntários que receberam a suplementação de selênio mantiveram ou melhoraram a função cardíaca. Por outro lado, o grupo que não tomou o medicamento manteve a mesma condição ou apresentou pioras clínicas.
Entre os pacientes que apresentavam alteração leve da função cardíaca no começo do estudo (cardiopatia de estágio B1), não foi observada diferença estatisticamente significativa entre o grupo tratado e o placebo após um ano.
No entanto, dados indicam que pode haver benefício do tratamento para esses pacientes, e que seria indicado o acompanhamento por maior tempo para responder a essa questão. Em média, a progressão da doença foi um pouco menos acentuada entre os voluntários tratados com selênio.
“Em função dos resultados do ensaio clínico, podemos sinalizar que a reposição de selênio poderia ser um tratamento coadjuvante para retardar a progressão da doença. Agora, é necessário aumentar o tempo de seguimento de um para cinco anos e verificar se esta tendência positiva a progredir menos se mantém”, disse o pesquisador da Fiocruz Alejandro Hasslocher.
Os próximos passos da pesquisa incluem a expansão no número de pacientes acompanhados e do tempo de seguimento, a investigação do aumento na dose de selênio e a combinação com outro suplemento, chamado de coenzima Q10, que pode potencializar o efeito da terapia.
Sobre a doença de Chagas
Os problemas do coração ocorrem em cerca de 30% dos pacientes com a doença de Chagas crônica, atingindo aproximadamente 400 a 900 mil pessoas apenas no Brasil. Cerca de 4,5 mil brasileiros morrem de doença de Chagas por ano. A maior parte dos óbitos é causada por distúrbios cardíacos, como arritmia, insuficiência cardíaca, tromboembolismo e morte súbita.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre seis e sete milhões de pessoas têm a doença de Chagas crônica no mundo. No Brasil, o Ministério da Saúde aponta que existem de um a quatro milhões de afetados, sendo que muitos casos não são diagnosticados.
Dois fatores contribuem para os problemas cardíacos na doença de Chagas. O parasito causador do agravo, Trypanosoma cruzi, se aloja no coração e ataca o músculo cardíaco. Na tentativa de combater o parasito, o organismo desencadeia uma reação inflamatória que, quando exacerbada, pode agravar ainda mais as lesões no órgão.
A doença evolui de maneira silenciosa e por muitos anos, formando uma espécie de cicatriz no músculo cardíaco, o que prejudica a capacidade de bombear o sangue e de realizar normalmente a atividade elétrica.
Cerca de 30 anos depois da infecção, os pacientes começam a apresentar os sintomas da cardiopatia chagásica, em geral, com alterações no eletrocardiograma, que são o primeiro sinal da forma cardíaca da doença de Chagas.
As opções de tratamento disponíveis atualmente são as mesmas utilizadas por pacientes que apresentam cardiopatia por outras causas, como por exemplo, por infarto. São medicamentos que podem melhorar a função do coração, mas não atacam as causas do problema em si, e não conseguem impedir que a cardiopatia chagásica piore progressivamente.
- COMENTÁRIOS
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
17:18
Dia Mundial do Autismo reforça importância do diagnóstico precoce e combate ao preconceito
Especialista explica sinais que podem ser identificados ainda nos primeiros meses de vida e destaca papel da família no desenvolvimento da criança
16:28
Sexta-Feira Santa é marcada por silêncio, reflexão e espiritualidade na Paróquia São José Operário de Brasnorte
Data relembra a morte de Jesus Cristo e convida fiéis à vivência do Tríduo Pascal com oração, jejum e reflexão
15:48
Polícia Militar prende homem com 15 tabletes de pasta base de cocaína em Aripuanã
Suspeito foi detido com as drogas em um ônibus interestadual vindo de Rondônia
15:44
TCU valida acordo que destina R$ 857 milhões para aeroportos de três cidades em Mato Grosso
O programa prevê o repasse da administração de aeroportos de menor porte às concessionárias que já atuam no país, tendo como contrapartida a revisão das obrigações contratuais.
14:07
Colisão entre moto e bicicleta deixa duas vítimas graves em Juína
As vítimas foram encaminhadas para atendimento médico, e o estado de saúde atualizado ainda não foi divulgado.
11:57
Polícia Civil de Tangará captura mulher condenada a 39 anos por matar o filho e ocultar o corpo
A prisão da suspeita reativa a memória de um dos episódios mais cruéis da história de Mato Grosso
21:08
Vereador apresenta projeto para impedir cobrança de dívidas de terceiros em contas de água
Projeto garante proteção ao consumidor e reforça direito ao acesso a serviços essenciais
20:41
APAE de Brasnorte promove ação e abre semana do autismo
Mobilização reuniu alunos, famílias e profissionais para reforçar a importância da inclusão
20:23
Brasnorte conquista curso técnico gratuito em agropecuária
Parceria entre Sindicato Rural e Senar-MT abre 36 vagas com inscrições limitadas
16:33
Diretor sindical aponta excesso de carga horária de policiais civis em Tangará
O foco principal do encontro foi a jornada de trabalho da categoria, que, segundo a entidade, tem ultrapassado os limites legais e operacionais permitidos
MAIS LIDAS
O grupo 'Elas não Param' arrecada centenas de doações com o 2° 'Treinão Chocolate' em Juína
Diretor sindical aponta excesso de carga horária de policiais civis em Tangará
Sexta-Feira Santa é marcada por silêncio, reflexão e espiritualidade na Paróquia São José Operário de Brasnorte
Semana Santa: Feira do Produtor de Tangará terá Horário Estendido
Polícia Civil de Tangará captura mulher condenada a 39 anos por matar o filho e ocultar o corpo
Colisão entre moto e bicicleta deixa duas vítimas graves em Juína
Histórias reais reforçam importância do autocuidado na prevenção do câncer


