'Fundão' abastece campanhas em Juína: candidatos já receberam mais de R$ 2,1 milhões
Levantamento no sistema do TSE mostra que cerca de 90% dos recursos declarados pelos nove candidatos analisados vieram das legendas; valores ainda podem aumentar até o fim da campanha.
Por: Repórter em Ação
Publicado em 28 de Setembro de 2026 as 17:09 Hrs
Os candidatos de Juína que disputam as eleições de 2026 já movimentaram valores expressivos em suas campanhas. Levantamento do Repórter em Ação, realizado a partir dos dados de prestação de contas divulgados pela Justiça Eleitoral mostra que a maior parte dos recursos recebidos por vários deles tem origem nos próprios partidos, especialmente por meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido popularmente como Fundo Eleitoral ou “Fundão”.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibiliza no sistema DivulgaCandContas informações sobre receitas, origem dos recursos, despesas contratadas e pagamentos realizados. Os dados são atualizados ao longo da campanha e, portanto, podem sofrer alterações. A prestação parcial divulgada pelo TSE considera a movimentação registrada até 8 de setembro de 2026, embora novos lançamentos e atualizações possam aparecer posteriormente.
Para as eleições de 2026, o TSE informa que o Fundo Eleitoral soma R$ 4,961 bilhões, recursos públicos destinados ao financiamento das campanhas, cuja distribuição aos candidatos é definida pelos próprios partidos dentro dos critérios estabelecidos pela legislação eleitoral.
Professora Gecilda lidera arrecadação entre os estaduais
Entre os candidatos a deputado estadual ligados a Juína incluídos neste levantamento, Professora Gecilda, do Republicanos, aparece na primeira colocação em arrecadação, com R$ 483.500,00 recebidos.
Todo o valor informado tem origem partidária: R$ 247 mil vieram da direção estadual do Republicanos e R$ 236,5 mil da direção nacional da legenda.
Os dados disponíveis também mostram que a candidata já contratou R$ 167.769,41 em despesas, dos quais R$ 94.769,41 foram pagos.
A participação do dinheiro partidário é particularmente significativa no caso de Gecilda. Em levantamento anterior baseado nos dados divulgados pela Justiça Eleitoral, o TSE também registra repasses do Republicanos à candidatura, incluindo valores provenientes das direções nacional e estadual.
Mabel aparece em segundo lugar
A segunda maior arrecadação entre os estaduais do levantamento é de Mabel, do PSD, com R$ 312.000,00.
Todo o valor informado é proveniente do partido: R$ 300 mil da direção nacional do PSD e R$ 12 mil da direção estadual de Mato Grosso.
Até o momento considerado no levantamento, Mabel havia contratado R$ 138.868,30 em despesas.
Dados públicos também confirmam a forte participação do PSD no financiamento da candidatura, com os repasses registrados pelas direções nacional e estadual.
Irmão Geremias recebeu R$ 179,7 mil
Na terceira posição está Irmão Geremias, do PL, com R$ 179.750,00 arrecadados.
Desse total, R$ 129.500,00 vieram do Partido Liberal, sendo recursos das direções nacional e estadual. O restante é composto por doações de pessoas físicas e recursos próprios.
Geremias já contratou R$ 135.201,50 em despesas, mas somente R$ 11.441,50 foram pagos até o momento considerado no levantamento.
A distribuição registrada mostra R$ 100 mil da direção nacional do PL, R$ 29,5 mil da direção estadual, R$ 30 mil de pessoa física e R$ 20.250,00 de recursos próprios.
Vitor Gabriel recebeu R$ 113,5 mil
O candidato Vitor Gabriel, do PL, aparece na quarta colocação, com R$ 113.500,00 arrecadados.
Dos recursos, R$ 75 mil são provenientes do PL, entre direção nacional e estadual. O restante é formado principalmente por doações de pessoas físicas.
A campanha contratou R$ 87.120,71 em despesas e já quitou R$ 79.620,71.
Os dados publicados também mostram que os R$ 75 mil recebidos do partido estão divididos entre R$ 50 mil de Fundo Especial de Financiamento de Campanha e R$ 25 mil de Fundo Partidário, além de outros recursos.
Esse detalhe é importante: nem todo dinheiro enviado por um partido deve ser automaticamente chamado de “Fundão”. O TSE diferencia o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) do Fundo Partidário. Ambos podem ser repassados pelas legendas, mas são fontes distintas de recursos.
Prof. Carlito recebeu R$ 101,1 mil
O candidato Prof. Carlito, do PT, recebeu R$ 101.100,00.
A maior parte, R$ 97 mil, veio da direção nacional do PT. Outros R$ 4.100,00 foram registrados como doação de pessoa física.
A campanha contratou R$ 84.831,30 em despesas, das quais R$ 58.331,30 já foram pagas.
A participação do PT é confirmada nos dados públicos de prestação de contas, que registram os R$ 97 mil provenientes da direção nacional do partido.
Salete Bergamin recebeu R$ 50 mil
A candidata Salete Bergamin, do Podemos, recebeu R$ 50.000,00, integralmente provenientes da direção nacional do partido.
Até o momento considerado neste levantamento, não havia informado despesas contratadas.
Os dados públicos da candidatura confirmam os R$ 50 mil recebidos do Podemos e apontam que não havia despesas apresentadas naquele momento.
Sillo recebeu R$ 30 mil
Na sétima posição entre os estaduais aparece Sillo, do PDT, com R$ 30.000,00 arrecadados.
O valor foi repassado integralmente pela direção nacional do PDT.
A campanha registrou R$ 18.856,27 em despesas, todas quitadas.
Os dados divulgados pelo TSE confirmam o repasse de R$ 30 mil da direção nacional do partido.
Ranking dos candidatos a deputado estadual

Somando as sete candidaturas estaduais, foram declarados R$ 1.269.850,00 em receitas. Desse total, R$ 1.177.000,00 correspondem a recursos provenientes dos partidos, de acordo com os valores informados neste levantamento.
Isso significa que aproximadamente 92,7% de toda a arrecadação dos sete candidatos veio de recursos partidários.
E entre os candidatos a deputado federal?
Na disputa pela Câmara dos Deputados, dois candidatos ligados a Juína aparecem neste levantamento: Luiza Böer, do PL, e Altir Peruzzo, do PT.
Luiza Böer recebeu R$ 654,3 mil
A maior arrecadação entre os candidatos analisados é de Luiza Böer, do PL, com R$ 654.375,22.
Desse total, R$ 600 mil foram repassados pela direção nacional do Partido Liberal.
A candidata também declarou R$ 2 mil de recursos próprios, além de doações de pessoas físicas e recursos provenientes de financiamento coletivo.
A campanha apresenta uma particularidade: o volume de despesas contratadas já supera a arrecadação registrada.
São R$ 700.398,05 em despesas contratadas, contra R$ 654.375,22 arrecadados. A diferença é de aproximadamente R$ 46 mil.
Até o momento, foram pagos R$ 198.615,27.
Os dados públicos confirmam os R$ 600 mil transferidos pela direção nacional do PL e mostram ainda R$ 37.500,00 de pessoas físicas, R$ 14.875,22 de financiamento coletivo e R$ 2 mil de recursos próprios.
É importante observar que despesa contratada não significa necessariamente despesa já paga. O próprio TSE permite acompanhar separadamente o valor contratado e o valor efetivamente desembolsado.
Altir Peruzzo recebeu R$ 259,6 mil
O candidato Altir Peruzzo, do PT, recebeu até o momento R$ 259.697,30.
Desse total, R$ 200 mil foram enviados pelo PT.
Entre as demais receitas aparecem doações de pessoas físicas, incluindo R$ 14 mil da esposa do candidato e R$ 15.400,00 do próprio Altir.
A campanha já contratou R$ 278.739,81 em despesas, valor superior à arrecadação registrada.
Dos gastos contratados, R$ 216.049,81 já foram pagos.
O acompanhamento histórico dos dados mostra que os números de Altir foram atualizados ao longo de setembro, reforçando a necessidade de considerar a data da consulta ao comparar as contas.

Somadas, as duas campanhas federais já declararam R$ 914.072,52 em receitas, sendo R$ 800 mil provenientes dos partidos.
Ou seja: aproximadamente 87,5% dos recursos arrecadados pelas duas candidaturas federais vieram das próprias legendas.
Despesa contratada não é a mesma coisa que dinheiro já gasto
Um dos pontos que mais chama atenção na análise é a diferença entre valor contratado e valor efetivamente pago.
A prestação de contas eleitoral permite acompanhar as duas informações.
Isso explica, por exemplo, o caso de Luiza Böer. A campanha declarou R$ 700.398,05 em despesas contratadas, mas havia pago R$ 198.615,27.
No caso de Altir Peruzzo, foram contratados R$ 278.739,81, dos quais R$ 216.049,81 foram pagos.
Também chama atenção o caso de Irmão Geremias: R$ 135.201,50 contratados, mas apenas R$ 11.441,50 pagos no levantamento apresentado.
Onde está indo o dinheiro das campanhas?
Entre os principais tipos de despesas declaradas pelos candidatos aparecem serviços diretamente relacionados à estrutura eleitoral, comunicação e funcionamento das campanhas.
Estão entre os gastos registrados:
publicidade e produção de material;
serviços de comunicação e redes sociais;
impulsionamento de conteúdo;
serviços advocatícios;
serviços contábeis;
contratação de terceiros;
locação de veículos e imóveis;
produção de materiais de campanha;
despesas administrativas e taxas.
No caso de Luiza Böer, por exemplo, aparecem entre as despesas contratadas serviços de publicidade por materiais impressos, serviços advocatícios, serviços prestados por terceiros, impulsionamento de conteúdo e locação de imóvel, entre outros.
Quanto cada campanha já comprometeu do limite legal?
O TSE fixou para 2026 o limite de R$ 1.270.629,01 para deputado estadual e R$ 3.176.572,53 para deputado federal. Esses limites são definidos pela Portaria TSE nº 449/2026.
É importante destacar que receber recursos abaixo do limite não significa que a campanha possa gastar qualquer valor. O que deve ser respeitado é o teto legal de gastos, independentemente de quanto o candidato tenha arrecadado.
Pelos números apresentados, nenhuma das campanhas analisadas se aproxima ainda do limite máximo de gastos.
Entretanto, no caso de Luiza Böer e Altir Peruzzo, as despesas contratadas já superam o total de receitas declaradas até o momento. Isso, por si só, não significa irregularidade: a campanha pode receber novos recursos posteriormente, e os dados são atualizados durante o processo eleitoral.
O peso do chamado “Fundão”
Os números mostram uma característica importante das campanhas de 2026: os partidos têm papel central no financiamento das candidaturas.
Entre os sete candidatos a deputado estadual analisados, R$ 1,177 milhão dos R$ 1,269 milhão arrecadados têm origem partidária.
Entre os dois candidatos a deputado federal, são R$ 800 mil de R$ 914 mil.
O chamado “Fundão” é, oficialmente, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC). Trata-se de dinheiro público destinado ao financiamento eleitoral. Para 2026, o TSE informa um total de R$ 4.961.519.777,00 para o FEFC. A distribuição aos candidatos, entretanto, não é feita diretamente pelo TSE: os partidos recebem suas cotas e definem os critérios de distribuição aos seus candidatos, dentro das regras legais.
Por isso, ao analisar uma prestação de contas, é necessário diferenciar recursos de partidos, Fundo Especial de Financiamento de Campanha, Fundo Partidário, doações de pessoas físicas, recursos próprios e financiamento coletivo.
Transparência durante a campanha
A legislação eleitoral determina que candidatos e partidos informem à Justiça Eleitoral a movimentação financeira da campanha.
Para 2026, o TSE estabeleceu que os recursos financeiros recebidos devem ser informados em até 72 horas, permitindo que a sociedade acompanhe a origem do dinheiro.
O TSE explica que o sistema foi criado justamente para ampliar o controle social sobre a origem e a aplicação dos recursos eleitorais. As informações incluem receitas, doadores, despesas contratadas e pagamentos.
A prestação de contas parcial não é, porém, a prestação de contas definitiva. Ao final da eleição, candidatos e partidos ainda deverão apresentar as contas finais à Justiça Eleitoral dentro dos prazos estabelecidos.
Os números podem mudar
Outro ponto fundamental é que os valores apresentados neste levantamento não são definitivos.
Durante a campanha, candidatos podem receber novos recursos, contratar novas despesas, efetuar pagamentos de contratos já registrados e corrigir ou complementar informações.
O próprio TSE informa que os dados da prestação parcial correspondem à movimentação declarada pelas campanhas e ficam disponíveis para consulta pública justamente para permitir o acompanhamento durante o processo eleitoral.
Assim, o retrato apresentado nesta reportagem representa a situação das contas no momento do levantamento, e não o valor final que cada candidato terá arrecadado ou gasto até o encerramento da campanha.
Os números deixam claro que o dinheiro dos partidos ocupa espaço predominante nas campanhas dos candidatos de Juína analisados.
Entre os estaduais, Professora Gecilda lidera a arrecadação, com R$ 483.500,00, seguida por Mabel, com R$ 312 mil, e Irmão Geremias, com R$ 179.750,00.
Na disputa federal, Luiza Böer aparece com R$ 654.375,22, enquanto Altir Peruzzo soma R$ 259.697,30.
Mais do que mostrar quanto cada campanha recebeu, a prestação de contas permite ao eleitor acompanhar quem financiou as candidaturas, quanto foi contratado, quanto já foi efetivamente pago e quais empresas ou profissionais estão recebendo os recursos.
Os dados estão disponíveis publicamente no sistema de prestação de contas da Justiça Eleitoral e podem ser atualizados até o encerramento da campanha e a apresentação das contas finais.
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