Cabeça de padre é enterrada junto ao corpo após quase 40 anos em Juína (MT)
O crânio, que era prova vinculada à ação penal, foi devolvido pela Justiça Federal e sepultado junto ao corpo.
Por: A Gazeta
Publicado em 20 de Abril de 2026 as 09:38 Hrs
A calota craniana do padre Jesuíta Vicente Cañas (Kiwxi), assassinado por defender o território da nação Enawenê Nawê, é sepultado junto a seu corpo, passados 39 anos do crime brutal. O padre espanhol, que viveu por mais de 10 anos na reserva localizada na região de Juína (Norte de Mato Grosso), é o único missionário branco que foi batizado pelo povo Myky, que lhe deu o nome de Kiwxi — “aquele que se doa por inteiro”.
O crânio, que era prova vinculada à ação penal, foi devolvido pela Justiça Federal e sepultado junto ao corpo. Entre os dias 6 e 9 de abril de 2026, a missão composta por representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Operação Amazônia Nativa (Opan), da Companhia de Jesus, da Diocese de Juína e do Instituto Federal de Mato Grosso - Campus Juína, juntamente com os familiares espanhóis e indígenas da etnia Enawenê Nawê, estiveram na Terra Indígena para realizar o sepultamento dos restos mortais de Vicente Cañas na terra onde viveu, lutou e foi assassinado aos 47 anos.
O jesuíta estava no barraco de apoio que construiu junto ao rio Juruena, a 60 km da aldeia, quando fez seu último contato por rádio com os companheiros em Cuiabá, em 5 de abril de 1987. Comentou que iria subir para a aldeia no dia seguinte. Estima-se que ele foi assassinado no amanhecer.
O corpo foi localizado mumificado, 40 dias depois, no dia 16 de maio, ao lado do barraco. O padre Renan Dantas, da Diocese de Juína, diz que a história de um dos maiores símbolos da missão junto aos povos indígenas no Brasil ganhou um desfecho concreto após quase 40 anos. Para os Enawenê Nawê, Vicente é considerado e reconhecido como alguém que integra o mundo espiritual e cósmico do povo, mantendo viva sua presença na memória e na espiritualidade da comunidade.
Para eles, enquanto todo o corpo não é submetido ao funeral, o espírito não descansa. Além do trabalho com os índios Enawenê Nawê, Vicente Cañas também atuou junto a outras tribos indígenas. O jesuíta escreveu um diário de grande valor antropológico com cerca de três mil páginas. No documento, ele relata suas experiências diárias, sua comunhão profunda com os Enawenê e, também, as ameaças de morte que recebia.
BRUTAL
A violência imposta ao corpo do padre jesuíta Vicente Cañas, por ocasião de seu martírio, ainda está nítida na memória de um dos participantes do cerimonial deste ano, o indigenista estava entre os cinco homens que localizaram o corpo de Cañas há 39 anos. Dentro da casa, sinal de luta com muitas coisas quebradas. Parte do corpo estava mumificado, de forma impressionante. Cañas foi morto com um golpe na cabeça, possivelmente com o bastão de madeira de um pilão que possuía.
Ele foi atingido ainda por um golpe de faca entre o abdômen e o peito e teve cortado seu órgão genital pelos assassinos. Segundo o padre Aloir Pecini, o crime deve ter acontecido ao amanhecer, logo depois que Cañas subiu do banho de rio para o barraco. Foi rendido por pelo menos dois criminosos, torturado violentamente até a morte.
Mas, mesmo em uma área de mata selvagem, o corpo estava intacto, não foi atacado nem devorado por animais ou aves. Estava tão preservado que os ferimentos eram visíveis e não deixavam dúvidas de que foi uma morte violenta e provocada. A polícia só foi ao local três dias depois de ser acionada.
A perícia foi realizada ali mesmo e o corpo liberado para o sepultamento. Anos depois passou por exumação, quando a calota craniana foi separada dos demais restos mortais e encaminhada para perícia, em Belo Horizonte. A primeira investigação do crime brutal foi comandada pelo então delegado da Polícia Civil, Ronaldo Antônio Osmar, hoje com 73 anos. A tese era de que Cañas havia morrido de causas naturais, em razão de uma hemorragia por úlcera gástrica, afirma Pecini, contrariando todas as evidências do local do crime e do próprio corpo que se manteve intacto.
A investigação foi comandada pelo delegado que mais tarde foi levado a júri popular como o responsável por agenciar os assassinos a mando de um consórcio formado por fazendeiros e madeireiros que queriam invadir a terra indígena. Em 2006, Ronaldo Osmar foi absolvido pela Justiça Estadual.
O Ministério Público Federal (MPF) recorreu da decisão e, em 2015, o Tribunal Regional Federal (1ª Região) anulou o júri por considerar a decisão manifestamente contrária à prova dos autos, determinando a realização de um novo julgamento. Em 2018, Ronaldo Osmar foi condenado a 14 anos de prisão em regime fechado. Hoje cumpre prisão domiciliar no estado de Goiás.
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