Vorcaro cita R$ 30 mi a filme de Lula, diz revista; PF vê delação sem prova
Ex-banqueiro diz que Vaccari Neto cobrou pagamentos em troca de acesso a fundos de pensão de estatais; Lula nega
Por: CNN Brasil
Publicado em 09 de Outubro de 2026 as 11:05 Hrs
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro relatou ter negociado com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto pagamentos em trocas de acesso aos cofres dos fundos de pensão de servidores federais.
Mensagens e documentos obtidos pela revista Veja mostram que o empresário teria pago R$ 30 milhões, em espécie, ao Instituto Lula, gerenciado por Paulo Okamotto.
Os recursos seriam destinados ao financiamento de uma produção de um documentário sobre Lula no exterior. Segundo a reportagem, Vorcaro detalhou o esquema em um anexo que foi levado à PGR (Procuradoria-Geral da República). A PGR, entretanto, alegou falta de provas e não avançou no caso.
Integrantes da Polícia Federal informaram à CNN que o órgão recusou a delação de Vorcaro por ausência de elementos mínimos que dessem credibilidade ao que ele disse. Eles ressaltaram que a PGR chegou à mesma avaliação.
A defesa de Vorcaro teria argumentado ter mensagens, registros das pessoas que retiraram o dinheiro vivo e a relação de lugares usados por operadores nas entregas do dinheiro.
De acordo com a revista, a aproximação de Vorcaro com o PT foi articulada pelo então CEO do Master, Augusto Lima. O então líder do governo Lula no Senado, senador Jaques Wagner (PT-BA), teria intermediado o primeiro encontro com Vaccari.
As informações, ainda segundo a reportagem, constam em um anexo levado à PGR em junho, quando a segunda proposta de delação de Vorcaro foi descartada.
“O meu então sócio, Augusto Lima, através dos caciques do PT da Bahia, se reuniu com João Vaccari Neto. Nesse primeiro encontro ficou aventado que, para que houvessem votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente R$ 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula”, disse o banqueiro.
O filme a que ele se refere é o documentário Lula, de Oliver Stone, que contou com depoimentos de amigos e aliados do presidente, como o advogado Walfrido Warde.
Vaccari também teria exigido uma taxa de 10% de tudo o que o banco captasse junto aos fundos de previdência de servidores da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios. A conta estimada era de R$ 1 bilhão para o PT e R$ 9 bilhões para o Master.
Em um áudio sobre a negociação, Vorcaro teria dito: “Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele [Vaccari]. É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara [Vaccari] pede para colocar dinheiro no filme do Lula”. Até o momento, não está claro de quando é a gravação.
Ele também teria comentado sobre o patrocínio ao filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro, produção que também recebeu recursos do Master: “O filme do Lula eu coloquei acho que até mais [que o filme de Bolsonaro]. Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”.
Fonte da PGR ouvida em caráter reservado pela CNN afirma que o áudio atribuído a Daniel Vorcaro na reportagem não foi enviado à equipe que conduzia as tratativas de delação na instituição. Há a desconfiança de que o áudio tenha sido gravado depois das negociações serem frustradas.
Os relatos apresentados pelos advogados, explica essa fonte, eram esquemáticos em terceira pessoa, nunca em primeira pessoa, como consta da reportagem, e que o uso de termos como “mordidas” e “caciques” não fazia parte do linguajar das negociações.
As negociações também teriam envolvido o então ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, Alexandre Padilha, o então secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e outros dois operadores ligados a eles.
Conforme a reportagem, o contato de Vorcaro com presidentes dos fundos de pensão se dá com um operador petista identificado como “Júlio”, que teria acesso ao gabinete de Padilha no Planalto.
Ele teria apresenta o então banqueiro a Olavo Noleto. Em uma mensagem obtida no celular de Vorcaro, o empresário Walfrido dos Mares Guia menciona o contato: “Olavo me enviou mensagem falando que gostou muito de você”, escreveu Walfrido.
Vorcaro diz então ter ido ao Planalto conhecer Padilha e que teve pelo menos dois jantares com o ministro.
“Júlio, Olavo e seu primo Fernando foram em minha casa para uma conversa aberta: ‘só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse’”, diz Vorcaro.
Outra troca de mensagens mostra as movimentações de Vorcaro para reuniões e Brasília sobre as negociações.
“O e-mail que pediram Petros”, diz Vorcaro a Júlio, sobre o contato com a cúpula do fundo que ele havia feito, em 8 de abril de 2024. “Já repassei. Agora é o amigo com dever dele. Ontem estive com ele”, responde Júlio, referindo-se possivelmente a Noleto. “O da Petros já foi? Cobrando?”, acrescenta Vorcaro. “Já sim”, afirma Júlio. “Vamos pressionar pra boletar. Postalis evoluiu?”, questionou Vorcaro. “Evoluiu. Mandando e-mail também. Do BB essa semana resolve. Semana que vem reunião lá. Aí alinho contigo na sua agenda”, diz Júlio sobre Previ. “Vamos tentar concluir os que abrimos”, diz Vorcaro.
Em 29 de abril de 2024, o Master entrou na chamada “lista exaustiva”, um documento oficial publicado pelo governo que mostra as instituições financeiras autorizadas a receber recursos dos fundos de previdência estatais.
As conversas de Vorcaro mostram que Júlio teria contado um pagamento de R$ 500 mil no mesmo dia em que o Master foi autorizado pela gestão petista a operar nos fundos.
“Quero ver agora você virar uma boleta de verdade”, diz o então banqueiro após o pagamento. “Pode deixar. É empenho de vida, Daniel, isso”, disse Júlio.
As conversas mostram ainda uma menção a um jantar em que participariam Padilha, Olavo e Júlio na casa de Vorcaro. “Daniel, desculpa tá apertando, mas é que você é a única pessoa que eu possa falar isso!! Preciso ver se você consegue me ajudar… Quero ir pro jantar tranquilo”, disse Júlio em mensagem.
Os negócios envolvendo fundos federais, no entanto, não avançaram. Um vazamento comprometeu a primeira tentativa do Master de negociar R$ 500 milhões em letras financeiras na Caixa Econômica Federal.
Em outubro de 2024, mensagens de Vorcaro mostram menções a um encontro com Lula, mas as conversas não detalham se a reunião ocorreu. “Daniel, liga pro Olavo… O PR vai te receber…”, escreveu Júlio. “Daniel, tô insistindo aqui porque já conversaram com PR e ele gostou da conversa! Olavo pediu pra retornar para ele para fazer agenda contigo”, disse.
Diálogos ocorridos em 2025 mostram que Vorcaro não teve sucesso na captação dos recursos. “Estamos já há mais de 12 meses tentando uma boleta. Não dá pra mobilizar a equipe para novos temas sem concluir nenhum”, disse Vorcaro em junho de 2025. “Falhou de novo o negócio?”, insistiu o banqueiro.
Segundo a reportagem, Júlio teria alegado que as “fake news” sobre as fraudes do Master atrapalhavam as possíveis captações junto aos fundos.
“Cara, essa é a última chance. Se não entrar nada até final da semana que vem, eu gostaria que você encerrasse o trabalho. Já consumiu muito tempo, dinheiro e recursos nossos”, disse Vorcaro. “Concordo!”, afirmou Júlio. “Sexta que vem — não entrando — vida que segue. Lá na frente bolamos outra coisa juntos”, acrescentou Vorcaro.
Relatos sobre as negociações do esquema teriam sido levados por Vorcaro para a negociação de uma colaboração premiada, que ainda não avançou. Ele já teve duas propostas de delação negadas.
A CNN procurou o Palácio do Planalto, o Instituto Lula, e a campanha do presidente sobre o assunto. Também questionou a assessoria de Padilha. Olavo Noleto disse que não irá se manifestar. O espaço segue aberto. A CNN tenta contato com Vaccari Neto, Walfrido dos Mares Guia e Okamoto.
À Veja, Lula disse que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome”. Padilha também negou relação com Vorcaro.
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