Retrospectiva 2022, por Maurício Munhoz
Mas o que vejo adiante são muitos desafios.
Por: *Mauricio Munhoz
Publicado em 07 de Janeiro de 2023 as 09:32 Hrs
Todo ano chega esta época em que paramos para pensar no ano que passou, as adversidades e as conquistas, os erros e acertos. Por isso, gostaria de me utilizar deste espaço para fazer uma retrospectiva, especialmente como secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso, Seciteci.
Procurei trabalhar com os diversos talentos humanos que a secretaria conta, e mirei na ideia da Seciteci ser um instrumento de diminuição das desigualdades e melhoria da complexidade econômica de Mato Grosso.
A educação profissional tecnológica, uma de nossas maiores prioridades, buscou tornar o conhecimento acessível, por isso investimos principalmente na formação da população mato-grossense, inaugurando escolas técnicas, abrindo novos cursos, investindo na formação, disponibilizando mais vagas nos cursos já existentes (aumentamos em 820% a oferta de cursos), inclusive atendendo o sistema prisional, aldeias indígenas. Vamos também atender o CapacitaSuas em 2023, algo que o Estado sempre contratou empresas privadas, e estamos em negociação para atender diversas empresas, como a Bom Futuro, e a Euca, em Alto Araguaia.
Entregamos ônibus escolares, algo inédito, e aproximamos os diretores com o gabinete do secretário. Lançamos o “portal do ex. aluno” que vai acompanhar os nossos estudantes, fizemos um estudo de demanda por cursos de acordo com os municípios, em power BI, para que os cursos ofertados pela rede Seciteci encontrem empregabilidade
Intensificamos nossas relações com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e com a Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT); ampliamos o MT Ciência, programa socioeducativo que realizou este ano o Circuito Itinerante de Ciência de MT, que teve como objetivo aproximar jovens dos estudos de ciências; realizamos a Mostra Estadual das Escolas Técnicas; e investimos na produção de ciência nas escolas, destinando R$ 100 mil para cada escola desenvolver projetos de pesquisa, além de 16 projetos de professores e alunos serem contemplados com recursos do fundo de amparo a pesquisa, incluindo R$ 1,6 milhões para o projeto que interliga todas nossas escolas técnicas, o “semente dourada”, que se aprofunda no estudo de sementes, a alma do agronegócio, da bioeconomia e da agricultura familiar.
Começamos, em setembro de 2022, o projeto de estudo da Bioeconomia, em nossa escola técnica de Alta Floresta, com suporte do BNDES e do governo alemão.
Com a produção de ciência pelas escolas tenho muitas histórias impressionantes para contar, vou me limitar a duas: a primeira destaco a experiência dos professores, alunos e direção da escola técnica de Lucas do Rio Verde, que produziram um “piso drenante”, aproveitando restos de construção civil, chegaram a um piso que absorve a água para o subsolo. Trouxemos essa experiência para o Parque Tecnológico de Várzea Grande, e já está lá, experimentalmente no prédio que está em construção.
A segunda história é um símbolo: Sabemos que as mulheres ganham (renda) menos que os homens no Brasil e que os pretos e pardos ganham menos que os brancos (temos um estudo desenvolvido pela Seciteci chamado de “indicadores para o ensino profissional tecnológico”, lançado em novembro de 2022, que aponta diversas desigualdades regionais e sociais em Mato Grosso). Entendemos que a Seciteci é um instrumento para a resiliência a essas desigualdades.
Então, voltando à história, uma jovem, parda, empregada doméstica de Tangará da Serra resolveu se matricular na Escola Técnica da cidade. Ensino público e gratuito. Na escola ela viu um ambiente de incentivo a produção da ciência e começou a desenvolver um projeto, apoiado pela direção e professores, chamado de capsula biodegradável, que é adubo e defensivo. Neste ano ela participou da semana científica promovida na própria escola, também na estadual, em Cuiabá, chegando na nacional em Brasília, e venceu. Na capital federal o experimento dela ficou em terceiro lugar na competição nacional, disputando com universidades e institutos federais do Brasil inteiro. Portanto esse é o símbolo. A Seciteci pode ser o instrumento de transformação individual do cidadão e que demonstra: para ciência não há limites de região, gênero ou raça, o que se precisa é oportunidades.
Também inauguramos, em outubro 2022, o centro de alta performance da Seciteci, que ofertará profissões do futuro, começando pelo curso de desenvolvimento de programadores Java, Genexus e React. Esse centro é um esforço para que Mato Grosso se adiante nessa nova arquitetura do emprego mundial. Nesse curso inicial, também gratuito, os 50 melhores alunos serão contratados pelo governo do Estado, com uma bolsa de R$ 6 mil ao mês, durante 1 ano.
Realizamos o seminário “Educação Profissional”, onde pudemos aproximar o debate educacional do público geral e um segundo seminário que debateu as causas da evasão no ensino. Uma das constatações foi que as mulheres desistem mais, geralmente por causas como “cuidar dos filhos”
Na pesquisa e tecnologia, questões essas intrinsecamente ligadas à educação, tivemos a oportunidade de ter 20 milhões de reais liberados pelo Estado para pesquisa e inovação em redes de laboratórios dentre eles, os R$ 1,6 milhões para o projeto “Laboratórios de Pesquisa Multiusuários” que citei atrás; organizamos a XVI Mostra Estadual de Ciência, Tecnologia e Educação (MECTI); lançamos a primeira edição da revista “Educação, Ciência, e Tecnologia”; realizamos o primeiro Seminário “Parque Tecnológico Pensando MT”, em que debatemos os impactos das mudanças climáticas; organizamos o HackaMT, que tem o objetivo de incentivar soluções tecnológicas na área de saúde, e participamos do encontro “Cidades Inovadoras”, no Rio Grande do Sul.
Além disso, a sustentabilidade também foi uma grande preocupação, por isso realizamos diversas ações voltadas à recuperação e preservação do meio ambiente, como por exemplo, a inauguração do Centro de Recondicionamento de Computadores (Recytec), primeiro centro de descarte de lixo eletrônico do Estado que já começou, em outubro de 2022, a produzir computadores reciclados entregues a entidades sem fins lucrativos( devemos produzir 1.200 por ano); e a realização do primeiro Fórum de Descarte de Equipamentos Eletrônicos. Também lançamos o RISC (Redes Inteligentes e Soluções Criativas) em Cuiabá, inclusive já fizemos, em dezembro de 2022, o depósito do valor para que a fundação da Unemat execute o centro em curto tempo.
E criamos, em conjunto com os novos pesquisadores que formam o Parque Tecnológico, o pré-projeto chamado de “plataforma de resiliência as mudanças climáticas” que vai reunir informações do mundo todo sobre as mudanças climáticas no Brasil, especialmente sobre a água. O Mato Grosso, por exemplo, está ampliando o uso de água irrigável para a agricultura, mas não se sabe o “estoque de água” no subsolo. Essa plataforma identifica isso e prepara um plano de manejo, para que não deixemos de usar nossa riqueza natural, mas que seja com um modelo sustentável. Apresentei o estudo na COP 27, no Egito em 2022.
Tivemos o início da atuação de duas grandes empresas em nosso Parque Tecnológico, a XCMG, chinesa, e a Weg, brasileira; realizamos um intercâmbio entre o Parque Tecnológico e a China; criamos o GT Internacional para realizar parcerias internacionais em torno do estudo da água; firmamos um acordo com a Universidade de Nebraska, Estados Unidos, para realizar o mapeamento hídrico de Mato Grosso; participamos da COP27, também apresentando nossos escritórios de realidade virtual, via Metaverso( que também implantaremos nas escolas técnicas); participamos da China High Tech Fair, maior feira de inovações da China, lançamos o projeto “campo conectado” com a PUC RJ, estive na Universidade de Chicago, no Instituto federal de tecnologia de Zurich, Suiça (onde Einstein estudou e lecionou) e no Instituto Tecnológico da Aeronautica, ITA.
Lançamos o “pesquisador no serviço público” que é um modelo para aproveitar professores da nossa rede de universidades no serviço público. O primeiro projeto é “tríplice hélice”, que vai aproximar o parque tecnológico(governo) com as universidades e empresas.
Faço aqui um agradecimento à equipe de servidores da Seciteci, que é alto nível de qualidade e comprometimento, e deixo ideias que começamos a construir, como o projeto do ônibus elétrico, da energia eólica, da oferta dos cursos tecnólogos, da reformulação do PCCS dos servidores, do empreendedorismo feminino, do estudo de logística e da constituição de um modelo de gestão para o Parque Tecnológico de Mato Grosso, que inaugura em 2023.
Agradeço ao governador Mauro Mendes pela oportunidade de servir Mato Grosso, na condição de secretário de Estado, e destaco que o governo criou um ranking de eficiência entre as secretarias de governo e autarquias, para apurar variáveis como entrega de obras, prazo para liquidação de empenhos, dentre outros, e a Seciteci ficou em primeiro lugar entre as secretarias, com 99% de eficiência. Um orgulho ter trabalhado em uma equipe assim.
Mas o que vejo adiante são muitos desafios. Especialmente com a plataforma de resiliência às mudanças climáticas, foram identificas ideias estratégicas que partilham o aparato do Estado. Pela sua estrutura primário exportadora, o poder público estadual fica com baixa capacidade de manobras estratégicas, e as secretarias ficam dependentes de pacotes tecnológicos “importados”
A hegemonia do agronegócio concentra propriedades, uso da mecanização e TI, por isso o fortalecimento do Parque Tecnológico e das escolas da rede Seciteci podem representar um Estado moderno, com as pessoas articuladas com as novas profissões e arquiteturas de negócios, como as startups. As escolas produzindo pesquisas mostram o caminho para a Seciteci se inserir na vanguarda tecnológica em diversos segmentos, como exemplo os pisos drenantes, a semente dourada e a capsula biodegradável.
O desafio é fazer com que a Seciteci ocupe esse espaço de vanguarda, ou se conforme em ser um espaço engessado, frágil e refém de um modelo macro econômico com compromissos herdados.
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*Maurício Munhoz Ferraz é sociólogo e ocupou o cargo de secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso em 2022. Atuou recentemente também como consultor, diretor de pesquisas da Fecomércio-MT e professor de economia da Unemat. Tem mestrado em sociologia, é vice-presidente da Câmara de Comércio Brasil-Rússia, membro do projeto governança metropolitana do Instituto de Pesquisa Economia Aplicada do Governo Federal (IPEA), vencedor do Prêmio Celso Furtado de economia. E-mail: mauriciomunhozferraz@yahoo.com.br
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